Helga Hoffmann

Essa guerra tem tudo para durar muitos anos, pois de nenhum lado se enxergam motivações para uma negociação em que ambas as partes concedam algo. A invasão rasgou a carta da ONU e a velha ordem internacional virou uma nova desordem internacional, não só pela realidade dos fatos, mas do ponto de vista jurídico também. O princípio da soberania territorial foi ignorado – e ao mesmo tempo se quer ignorar que não é a primeira vez que isso acontece desde a criação da ONU. Afeganistão, Líbia, Síria são apenas casos mais notórios. O princípio da não intervenção – em torno do qual chegou a brotar uma discussão sobre o “direito de intervir” segundo critérios a serem acordados na ONU – também perdeu validade porque desrespeitado, e desrespeitado por um membro do Conselho de Segurança da ONU, agora e nos casos anteriores. Ainda está por discutir um novo “direito internacional” ou algum remendo no direito internacional para pôr no lugar do que ruiu.

Arrazoados e retórica se interligam e se complicam. A memória dos ressentimentos é reavivada, nem só a partir do colapso da União Soviética (o ensino da língua russa se estendia não apenas à Ucrânia, mas a todas as repúblicas da URSS), mas a partir do século IX, das tribos eslavas antes da invasão mongol, para marcar que ucranianos não são russos, que são duas nacionalidades e culturas distintas que, ao longo da história, nem sempre tiveram relações fraternas. Nessa escalada, tornou-se impossível discutir paz, e por enquanto nem ao menos um cessar fogo, em termos da garantia de segurança nas suas fronteiras que a Rússia reivindica desde antes de 24 de fevereiro. (Poucos sabem que a distância Kiev-Moscou é pouco mais que a distância Rio-São Paulo.)

A OTAN está se preparando para enviar armas até o último ucraniano, depois que enviar armas ao último militar ucraniano. A população civil está sendo envolvida, não tem como ficar fora das batalhas, e as regras que existiam para definir “crime de guerra” são ignoradas, com reciprocidade. Se ao menos a guerra pudesse desembocar numa confirmação do antigo acordo de redução de armas nucleares, outrora assinado, jamais cumprido, e agora relembrado.

Sobram artigos tentando prever até quando vai durar essa guerra. Há os especialistas em armamento e estratégia militar, analisando características técnicas do arsenal de armas de cada lado, estudando como está sendo seu uso e seus efeitos, em relação à topografia das áreas invadidas. Estarão obsoletos os tanques? Devem ser produzidos lançadores de mísseis portáteis, para distribuir à população ucraniana, para uma guerra de guerrilha? A nova carreira armamentista instalada vai levar à produção de artefatos nucleares táticos? Algo cuja trágica “necessidade” ou triste “utilidade” tampouco sei avaliar. De quando em vez leio analistas dizendo que a Rússia está fracassando militarmente. Como assim? A afirmação aparece junto a fotos e vídeos de cidades ucranianas reduzidas a escombros. Verdade que esta semana estavam cheias as praias da margem do Dnieper, em Kiev, que o sol agora é o do verão, mas no leste tropas e tanques russos continuavam avançando.

Há tentativas de prever até onde resistirá a economia russa, qual o seu grau de resiliência, até onde e em que áreas haveria autossuficiência, qual o efeito das sanções, quem está comprando o petróleo russo. E até quando se manterá Putin, sua ditadura com dezenas de prisioneiros políticos e imprensa controlada, alguns presos depois da invasão, e que mantém preso Alexei Navalny, o principal líder de oposição, transferido esta semana da prisão em Moscou para lugar não informado. A adivinhação se estende à capacidade da população russa de tolerar as dificuldades causadas pela “operação especial” na Ucrânia, mas por ora parece que ainda está funcionando a ideia de que vale uma guerra para proteger os irmãos russos num país vizinho e os separatistas do Donbass apoiam a tal “operação especial”. Também se pretende calcular até que ponto a China se disporá a ajudar a Rússia.

Por outro lado, tenta-se prever quanta escassez suportarão os países que estão aplicando sanções e quantos sacrifícios suportará a população nos países da União Europeia em nome do apoio à Ucrânia contra a Rússia. Já está evidente que a economia americana, até pela capacidade de diversificar o suprimento de seus insumos, por ora sofre menos com as sanções que está aplicando. Donde a dúvida intermitente de analistas nos Estados Unidos sobre a resistência dos europeus na aliança transatlântica, e sobre a capacidade dos países da Europa, inclusive disposição política, de manter e/ou reforçar as sanções econômicas. E de aguentar retaliações russas atuais e potenciais. Aí a questão central é o fornecimento do gás russo, e há na Alemanha simulações até o fim de 2023, e mesmo 2024, que estimam o déficit de abastecimento e o impacto sobre a economia alemã, nada desprezíveis mesmo no cenário mais benigno. O preço da energia para domicílios e empresas tem aumentado assustadoramente.

E até onde irão outras sanções? Até agora não havia o direito de um governo desapropriar bens de residentes simplesmente por serem nacionais de outro país. Em geral as leis nacionais e tratados internacionais não facilitavam tal desapropriação, já que se buscava o livre movimento de bens, serviços e capitais. Já há dúvidas sobre tais leis nos casos de confisco de mansões, iates e outras propriedades de milionários russos que seriam ligados a Putin ou familiares dele, ou que não querem se manifestar sobre a guerra.

E até onde o direito de cancelar um espetáculo sem compensação?  Pois já ocorreu até mesmo o cancelamento de apresentações do Balé Bolshoi na Europa. E boicote a atletas russos. Qual o sentido de tal violência? Serve a quem? Quão longe isso pode ir? Vamos ter que boicotar Tchaikovsky ou Shostakovsky, Pushkin ou Evtushenko, Tolstoi, Dostoievski, Gorki, ou Eisenstein?  Omiti Tarkovski ao lado de Eisenstein porque era filho de ucraniano… Nem Gogol, que não conseguiram decidir se é russo ou ucraniano. Sim, carrego nas tintas, mas nem tanto. Restrições ao uso da língua russa na Ucrânia foram aprovadas já em 2014, no governo provisório instalado depois do golpe que expulsou Viktor Yanukovich, um presidente ucraniano acusado de russófilo. Na época serviram de pretexto para a tomada da Crimeia. Agora, em junho de 2022, o Parlamento da Ucrânia proibiu que se toque em locais públicos produção musical de autores ou intérpretes que sejam cidadãos russos desde 1991. E tornou obrigatório passar pelo menos 40% de música ucraniana nas rádios do país. Da lista de músicos banidos ficam fora artistas que condenem publicamente a invasão da Ucrânia ordenada por Putin. E deixaram fora Tchaikovski e Shostakovich, “por terem vivido em períodos anteriores ao atual contexto geopolítico”. A restrição aprovada no Parlamento se aplica também a determinados livros importados da Rússia, Bielorússia e das províncias ucranianas separatistas. Nacionalistas ucranianos temem “propaganda russa” na cultura e não percebem que isso fortalece as alegações russas de cerco e perseguição aos russos na Ucrânia.

Zelensky, que já manipulava o nacionalismo ucraniano desde que tomou posse em 2019, na atual situação de guerra só pode ficar cada dia mais nacionalista e “heroico”. E a política externa dos Estados Unidos, a potência dominante na OTAN, não tem qualquer motivação para moderá-lo, instá-lo a qualquer negociação, pois Zelensky serviu à perfeição para reforçar as posições da política externa americana na Europa e à ampliação da OTAN, bem como mais empenho europeu no seu fortalecimento. Para a entrada da Suécia e da Finlândia na OTAN, os aliados transatlânticos venceram a objeção do autocrático presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, dando-lhe direito de tratar curdos como lhe aprouver. É da Turquia a maior tropa da OTAN na Europa. Além de que os Estados Unidos já haviam abandonado à sua própria sorte seus antigos aliados curdos na Síria, quando deram luz verde para a intervenção militar da Turquia na Síria em 2019.

A triste realidade é que a guerra tem agravado os nacionalismos. Tanto o ucraniano, quanto o russo. E nem apenas esses. Passados 80 anos do início da II Guerra, teremos esquecido os horrores do nacionalismo? E quem lembra da I Guerra Mundial? No meio de uma guerra é difícil ou quase impossível escapar da polarização… e do nacionalismo. Minha percepção de como se esparrama essa onda é atávica. Minha mãe, Annemarie, nasceu em Hamburgo, Alemanha, em janeiro de 1914, e seis meses depois começou a I Guerra Mundial. Já contei essa história (e como a família veio parar no Brasil) aqui na “Será?” (03/08/2018, “Do Porto de Hamburgo ao Porto de Santos”).  O ponto que destaco agora é que depois que começa a guerra os pacifistas são pressionados pelo entorno e abafados e até acabam por se envolver nas batalhas. Quando a guerra foi declarada, em agosto de 1914, durante alguns meses ainda houve em Hamburgo movimentos e protestos contra a guerra, mas pouco a pouco o esforço de guerra foi tomando tudo e todos. ”Mesmo Echo, o jornal dos socialdemocratas, que antes defendera uma linha pacifista e de entendimento, aparece com a manchete: “… na hora do perigo não abandonamos a pátria”. E meu avô engenheiro parou de construir casas em Hamburgo e se apresentou para ser soldado. Quando vejo como os pacifistas estão sendo pressionados, marginalizados e hostilizados hoje, não só na Alemanha, é disso que lembro. Gradualmente se dobram líderes que tentavam resistir à máquina de guerra em movimento, ante uma demonização sem trégua.

Na Ucrânia em 2022, dentro da nova situação de “normalidade”, junto com a Lei Marcial da Ucrânia, que impede que saiam do país os homens até 60 anos de idade, foram tornados ilegais cinco partidos pequenos da Ucrânia que existiam antes da invasão e eram simpáticos aos russos, três dos quais tinham representação no Parlamento ucraniano. Mesmo fora da Ucrânia há resistência a falar dos acontecimentos de antes da invasão, da sequência dos eventos que acabaram por desembocar na invasão da Ucrânia de 2022. O discurso hegemônico é que “Moscou tem total responsabilidade pela catástrofe” e que a OTAN apoiará a Ucrânia “pelo tempo que for necessário”. Zelensky continua insistindo, todo dia, na entrada da Ucrânia na OTAN. Insiste-se no dogma de que a OTAN é uma aliança puramente defensiva. Dogma, porque na série dos conflitos internacionais da era moderna não há razão para todos os países e povos se convencerem da tese de que a OTAN é só defensiva, e que todos os seus membros a querem apenas defensiva. Mas quem agora duvida é suspeito de apoiar a invasão russa.

Também está sendo ignorado que há limites para a absorção de refugiados nos países que não estão em guerra diretamente. O retorno ao próprio país de milhões de refugiados ucranianos, mesmo enquanto dura a guerra, mostra as agruras de viver como refugiado, e que a ACNUR, o órgão de refugiados da ONU, está sobrecarregado. Aliás, já está sobrecarregado desde a guerra na Síria. Mas fornecer armas a combatentes é tido como mais relevante que oferecer abrigo a refugiados, ucranianos e muitos outros. Estão subindo rapidamente os gastos militares.

A invasão e a guerra na Ucrânia são uma tragédia mundial, e não é simplesmente por causa do encarecimento geral dos combustíveis e alimentos. É nítido o retrocesso de humanidade. Tem razão o Papa Francisco, pedindo diálogo: “a III Guerra Mundial já foi declarada”. Pois seus efeitos alcançam todo mundo. Sem diálogo, sem um mínimo de sensatez de todos os envolvidos para buscar uma solução que satisfaça ambos, Ucrânia e Rússia, não há como resolver o conflito.

 

Artigo originalmente postado em Revista Será?

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