As eleições se deram no dia 30 de outubro, mas a negação dos resultados continua parte da nossa realidade política. Depois das quase mil manifestações nas rodovias federais nos dias seguintes, com perto de 100 bloqueios totais, o dobro de parciais e o resto com agitações nos acostamentos, seguiram-se manifestações de peso, com dezenas de milhares de bolsominions cercando quartéis do exército em todas as capitais (menos Macapá) e em várias outras cidades.

O apelo às FFAA para intervirem anulando as eleições foi sendo esvaziado pela falta de reação do energúmeno presidente que fez um reconhecimento indireto da derrota e foi chorar no banheiro, de onde parece que não saiu. Mas algo de novo aconteceu nestas duas semanas. Em primeiro lugar, Bolsonaro foi ficando esquecido pelos manifestantes para dar lugar a um apelo direto pela ditadura militar. “Temos três poderes: exército, marinha e aeronáutica”, “SOS FFAA”, “FFAA, salvem o Brasil”, entre outras consignas, passaram a dar o tom das manifestações. Em segundo lugar, embora menos concorridas, as manifestações golpistas continuam significativas, com um recrudescimento no dia da República. Já são mais de 15 dias com grupos gritando, chorando e rezando nas portas e nos muros dos quartéis. Enquanto isso, tanto Bolsonaro (meio chocho) quanto generais, como Vilasboas e Braga Neto, fizeram declarações de apoio aos manifestantes e pediram para que “honrem suas fardas”, em um claro apelo a uma intervenção militar. Os três ministros militares fizeram uma declaração conjunta indicando que as manifestações são “legítimas”. Comandantes dos quartéis cercados, embora não permitam a aproximação dos bolsominions com os soldados e oficiais, não tomaram nenhuma providência para liberar as proximidades de suas unidades. Pior ainda, alguns chegaram a pedir às autoridades civis que providenciassem banheiros químicos, limpassem os acampamentos e prestassem socorro médico aos participantes. Fica-se imaginando o que fariam se os manifestantes fossem do MST, por exemplo.

Há algo não explicado em toda esta confusão. Se, por um lado, a oposição do alto comando do exército paralisou qualquer tentativa de movimentação militar depois das eleições, por outro lado, nada foi feito para acabar com esta provocação permanente apelando para um golpe. Ou bem os generais do alto comando estão “cevando” um clima golpista ou, mais provavelmente, não tiveram coragem de ordenar a “limpeza da área”. Porque será que não ousam dar esta ordem? Ela seria óbvia nas circunstâncias das provocações e coerente com suas decisões de não se comprometerem com o golpismo. A meu ver a generalada teme uma reação dos comandos intermediários, fortemente influenciados pelo bolsonarismo. Onde ficaria a hierarquia militar se os comandantes dos quartéis se recusassem a dispersar as manifestações? A força do mando hierárquico funcionou quando a decisão era de não fazer nada, mas será que funcionaria se a ordem fosse de intervir contra o “povo”? Afinal de contas, segundo inúmeras pesquisas, coronéis, majores, capitães e tenentes são bolsonaristas de carteirinha em sua grande maioria. Obrigá-los a aplicar a força contra gente que tem a mesma posição que eles, seria um gesto arriscado. Por outro lado, permitir estas manifestações não pode deixar de ir fomentando um clima de rebelião, senão na tropa, pelo menos entre os oficiais. Como estará o clima político dentro dos quartéis com esta constante pregação golpista às suas portas?

É preciso lembrar de outras manifestações golpistas, ainda mais agressivas, dirigidas sobretudo para os ministros do STF, tanto aqui como no exterior. E os inúmeros casos de agressões fascistas contra individuos e entidades não aderentes ao seu credo.

E o que fazem os democratas? Estamos assistindo este espetáculo com um misto de assombro pela loucura catártica dos manifestantes e uma crença de que isto não é mais do que um chororô de derrotados inconformados, que vai se esvaziar naturalmente. Estamos todos de acordo com a resposta do Ministro Barroso em Nova Iorque a um grupo de provocadores: “perdeu mané, não amola”. Os manés vão, claramente, continuar amolando. E nós confiando em uma ação decisiva do Supremo, enquadrando os financiadores e líderes dos tumultos golpistas. Mas, apesar das fortes falas do Xandão, o STF tarda em tomar uma providência.

Acho um perigo desnecessário ficarmos ancorados na reação institucional. Estamos deixando que se crie um modus operandi do golpismo que pode não dar em nada, mas que vai azeitando o funcionamento dos grupos mais aguerridos do bolsonarismo ou, com a crescente desmoralização do mito, do neofascismo nacional.

Ao enfrentarmos no ano passado as manifestações bolsonaristas nas ruas, conseguimos mostrar força e deixá-los sem ação, sobretudo depois do fiasco da intentona de setembro. Mas, satisfeitos com nossa capacidade de mobilização, fomos cuidar das eleições e abandonamos as ruas, até que o poder de convocatória do Lula levou milhões aos seus comícios de campanha. O Lula não pode, é óbvio, chamar manifestações contra o golpismo neste momento, mas a esquerda pode e deve fazê-lo. Aparentemente, o poder de atração do esforço de transição está nos levando ao imobilismo e ficamos torcendo para que tudo isso desapareça do cenário, seja pelo cansaço, seja por algum passe de mágica.

O que estamos assistindo é um ensaio geral de um golpe futuro. As vanguardas fascistas vão ficar fustigando o novo governo e incitando as FFAA a agir. Ou as obrigamos a se encolherem ou elas vão ganhar cada vez mais espaço, acicatadas pelo bombardeio de mentiras que desaba todos os dias, 24 horas sobre 24, nas redes sociais. Confiar no poder de atração do Lula e na sua capacidade de gerar efeitos positivos para as massas é não ver que o quadro político geral é muito difícil, sobretudo com vários governadores de estados chave na mão do fascismo e controlando as polícias militares que deveriam conter a provocação golpista. Lula vai ter muitas dificuldades para entregar resultados para o povo, enfrentando oposição feroz no congresso, em vários tribunais hoje repletos de bolsonaristas e com o empresariado cheio de rancores e desconfianças.

Sem mobilização de massas vamos ficar na defensiva e apenas torcendo para o nosso “mago” fazer o impossível e domar a onda de ódio que se quebrou nas urnas, mas que quase nos afogou.

P.S Artigo originalmente publicado na Revista Será?

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