Um perfil de uma rede social postou recentemente a seguinte frase: “Ninguém imaginava que dentro do armário tinha mais fascistas do que gays”. A tirada vem a propósito. A ascensão de um extremista como Bolsonaro fez de fato o armário se abrir. Com isso, nossa jovem e precária democracia dá um sofrido soluço. O cientista político alemão Yascha Mounk, em seu livro “O povo contra a democracia”, foi profético neste seu conselho: “Bolsonaro é o adversário mais poderoso que a democracia brasileira enfrenta em meio século, e seus partidários são cidadãos que, como você, terão que compartilhar o país por uma década ou até um século. Não o subestime e não menospreze essas pessoas […] Você poderá voltar à luta por taxas de impostos mais justas ou debater os limites do Estado de bem-estar social depois que esse perigo iminente tiver sido afastado. Por ora, é preciso união […]”.

As palavras de Mounk formam uma boa síntese: união, a despeito das diferenças políticas, e foco condizente à situação, que agora se sabe não é nada passageira, que é, ao contrário,  de coexistência com o já onipresente adversário. Essa coexistência exigirá dos verdadeiros democratas uma permanente vigilância. Dispensável dizer (mas uma boa redundância por vezes vale a pena) que os fascistas não estão apenas nos três poderes da República, eles estão a seu lado: são vizinhos, colegas, jovens, maduros, idosos, artistas, cientistas, acadêmicos, pessoas ditas “de bem”, ressentidos em geral, autoritários simpáticos e até envernizados pelo saber: enfim, gente como a gente.

Há quem ache o termo “fascista” pesado. Bem, leve é que não é. Seu uso como xingamento não diz outra coisa. Mas seu uso adequado não muda muito a carga negativa que carrega para sempre. Pouco ou nada propondo e muito reagindo, em especial à modernidade, o fascismo, para falar como e com o Umberto Eco do ensaio “O fascismo eterno”, tem uma permanente suspeita em relação ao mundo intelectual e uma “terrível” acusação ao mundo liberal, a saber: o abandono por este dos valores tradicionais. Não por acaso, brota entre fascistas a flor vigorosa de uma imensa hipocrisia.

O termo é pesado, mas leves e levianas são “as ações pelas ações”, como diz Eco. De nossa parte, acrescentamos: “leveza” hoje potencializada pelo fluxo sem consciência crítica das redes sociais. Daí a exacerbação da mentira. Daí, ao revés, a busca frenética pelas “verdades eternas” que só a religião promete, aliás não poucas vezes tem se falado no bolsonarismo como uma espécie de seita. Seita, como bom neofascismo, liberticida. Portanto, é preciso estarmos atentos às palavras e para onde e para quem se dirigem: o que sobra em agressividade, falta em crítica e racionalidade. Não por acaso, como lembra Eco, “Todos os textos nazistas ou fascistas se baseavam em um léxico pobre, em uma sintaxe elementar, com o fim de limitar os instrumentos para um raciocínio complexo e crítico”.

Além de liberticida e autoritário, o fascismo explora o rancor na política, e Mussolini  foi o primeiro a compreender isso, como bem observa o narrador de “M, o filho do século”, o primeiro volume do monumental romance histórico do italiano Antonio Scurati. Se Mussolini não foi o primeiro, foi um dos mais importantes. No Brasil de hoje, o arauto do rancor chama-se Bolsonaro. Sim, é ele indubitavelmente o maestro a arrancar de boa parte da população o ritmado ódio a fantasmas que supúnhamos desfeitos e pretéritos. Do rancor à violência, eis o passo que resvala para a barbárie e o terrorismo. Nada impede que a violência atual, ainda desorganizada politicamente, degenere em violência institucionalizada, até para “reparar” o líder eventualmente destituído de lugar de poder.

A saída do armário é faca de duas lâminas: de um lado, ela corta explicitamente o laço democrático e constitucional que rege a sociedade; de outro, delimita, por assim dizer, um campo político novo no Brasil, obrigando-nos a ver o que estava incubado ou pelo menos mitigado por certa visão otimista, senão mítica, do próprio País. Como quer que seja, será preciso coexistir à altura e fazer da lucidez, em meio à irracionalidade que irriga o iliberalismo, uma prática cotidiana.

Para jogar esse jogo, será preciso contermos nossas próprias emoções, e isso é algo que leva tempo. Será preciso demonstrar incansavelmente — ressalte-se — que nossa visão pode ser kantianamente edificada como um imperativo categórico que salva a humanidade e que a visão bolsonarista, caso alçada a uma máxima universal, seria o fim da democracia e do Estado de Direito. Oxalá o armário fique vazio e que se possa apontar os extremistas como quem são: extremistas. Extremistas e totalitários.

P.S Artigo originalmente publicado na Revista Será?

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